Café com Leitura: Quase Tudo-Danuza Leão

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Aos quinze anos, Danuza Leão freqüentava a casa do pintor Di Cavalcanti. Aos dezenove, foi a primeira modelo brasileira a desfilar no exterior. Aos vinte, casou-se com um importante dono de jornal que tinha o dobro da sua idade. Tempos depois, com três filhos pequenos, separou-se para viver um grande amor com um cronista e compositor pobre. Aos quarenta e poucos, já avó, comandou as noitadas das boates Regine’s e Hippopotamus (o que lhe valeu capa da revista Veja com o título “A grande dama da noite”).
Danuza foi dona de butique, membro de júri de programa de auditório, relações-públicas, entrevistadora de TV, produtora de novela, cronista social, e publicou um livro de enorme sucesso sobre etiqueta moderna. E agora conta (quase) tudo de sua vida extraordinária nestas deliciosas memórias. São muitas histórias alegres ou picantes de uma mulher que sempre prezou sua independência, mas também episódios tristes de quem sofreu perdas dolorosas.
E, como se não bastasse tudo o que é sábia e generosamente narrado ao longo deste livro, há o gran finale, com as melhores páginas que o leitor brasileiro provavelmente leu nos últimos anos. Sem fazer pregações, sem dar receitas, sem propor panacéias, Danuza Leão oferece com simplicidade e franqueza uma imensa lição de vida.

Trechos do livro:

“Quando eu tinha vinte e nove anos e era bem bonita – hoje me dou conta -, houve um momento em que engordei quatro quilos. Como sempre tinha sido um fiapo e continuava com cinqüenta e dois centímetros de cintura, mesmo depois de ter tido três filhos, dava para se perceber a diferença. Um dia fui almoçar na casa de meus pais, e, logo que entrei, meu pai me disse: “Danuza, você está um monstro”.

“Para manter um mínimo equilíbrio mental, preciso ficar muitas horas do dia absolutamente só; por isso gosto de viajar sozinha, por isso prezo tanto minha liberdade, por isso cheguei à conclusão de que não nasci para ser casada. Às vezes sinto uma certa solidão, mas não é assim tão ruim. Não sei de nada melhor do que chegar numa cidade onde não conheço ninguém, sentar num café, pedir um drinque, mais outro, ficar olhando as pessoas, imaginando suas vidas – fumando um cigarro, melhor ainda. Não sei o que meus filhos acham disso, mas mãe não se escolhe; amigos e amores também não, mas estes entram e saem de nossa vida, e é assim mesmo.”

“Nessa época faltava luz no Rio, com hora marcada. Quem morava em prédio ficava pela rua, esperando voltar a energia. Faltava também água – vivíamos com a banheira, panelas e baldes cheios -, e, nas poucas horas em que havia água, abríamos a torneira, molhávamos a escova de dentes, fechávamos a torneira, escovávamos os dentes e depois abríamos de novo a torneira, para enxaguar a boca. Como a água chegava sem aviso, as pessoas costumavam telefonar umas para as outras e perguntar: “Tem água aí? Posso ir tomar um banho?”. O banho era de cuia, mas, quando a água chegava, eu ia correndo para o chuveiro – abria-o por um minuto, para molhar o corpo, fechava, me ensaboava, e abria de novo para tirar a espuma. Até hoje sigo essa rotina e sou incapaz de desperdiçar luz ou água.”

Alguns livros são realmente inesquecíviles,ficam na memória como alguém especial, que compartilhou momentos importantes…Sempre gostei  das crônicas da Danuza Leão, mas essa autobiografia ´é surpreendente da primeira a última página.

Inquestionável a quantidade de histórias interessantes,e protagonizada por personagens famosos e carismáticos, á começar pela própria  Danuza Leão…

Mas o livro também se enquadra naquela eterna ilusão de “a grama do vizinho é sempre mais verde”e na ” perfeição estática” que a gente imagina, quando se trata da vida do outro.

fonte:Companhia das Letras

http://www.companhiadasletras.com.br/trecho.php?codigo=12148

 

 

 

 

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